Dirceu e o Doutor Moro
Ontem, quando José Dirceu foi preso em casa (ele estava em prisão domiciliar) o povo vibrou. Até mesmo quem não gosta de povo gostou da festa que o povo fez. E fez os rojões que o povo soltou, aqui em Curitiba, serem ouvidos em todo o país pela televisão.
Eu que estava na rua ontem, num bairro onde ninguém gosta muito de gente, vi a vizinhança toda vibrar de emoção. Assisti na TV de uma padaria: todos torcendo, embalados pela narração. O povo não é bacharel e não aprendeu como funcionam as leis, mas não é culpa dele. Somos nós, que aprendemos, que um dia decidimos que não íamos ensinar. Todo doutor aprendeu o que sabe com alguém, ou seja, teve um professor. Se não ensina para os outros é porque não quer.
O que aconteceu ontem foi que, a mando do doutor Moro, José Dirceu foi coagido a comparecer aqui em Curitiba. Esse palavreado todo de “coagido a comparecer”, “transferido” e “condução coercitiva” quer dizer somente que Dirceu foi trazido à força para cá. Por isso, quando estivermos falando com o povo, nós que aprendemos podemos dizer “trazido à força” mesmo que assim o povo entende.
José Dirceu foi trazido à força para a cadeia do doutor Moro para ser interrogado. O doutor Moro quer saber se ele confirma ter participado do esquema entre as empreiteiras e a Petrobrás. E, quem sabe, se topa delatar alguém. Mas o que Dirceu teria a declarar?
Tem muita gente que sabe quem é José Dirceu, de onde ele veio; sabe o que ele já enfrentou e o tamanho que ele tem. Sabe que Dirceu pediu um habeas corpus semana passada, que é o direito de não ser levado à força pra cadeia. Mas, quando o povo pergunta, dizem apenas: é um bandido.
Quem sabe quem é Dirceu sabe também que ele não vai falar. O juiz Moro não é capaz de arrancar uma confissão dele. Talvez ninguém seja capaz. Dirceu já passou por muita coisa pior, tem muita fibra e não se dobra.
E como Dirceu não vai falar, toda essa movimentação do doutor Moro é só pra passar na televisão e manchar a sua imagem. Mas é também para atingir Dirceu, machucar ele. Mesmo sem gostar do povo, tem gente que gosta de contar histórias pra ele. Ou melhor: de esconder uma parte da história pra que só eles fiquem sabendo.
Quem lê, então, já sabe que tudo isso é só pra show. Sabe que estão querendo se vingar de tudo o que Dirceu já fez, principalmente o estrago que ele ajudou fazer nas urnas dessa gente. E querem machucar Dirceu.
Mas Dirceu não se dobrará.
Ainda sem nome
Ainda sem nome está o remédio para a doença já diagnosticada, cujos sintomas já se sentem e que se tenta esquecer. Ainda sem nome é a nova medida, o novo sacrifício, a nova sujeição.
Por muitos anos temos colocado o velho Emplastro Sabiá sobre o lombo e agradecido a Deus pelo alívio na dor. A oração vai ficando cada vez mais fina e insuficiente, já não engana mais. A lancinação espera na próxima esquina, sabemos.
Por doença entendo o antropoceno, por emplastro o modelo político do Estado Nacional que, filho do pensamento moderno de crescimento infinito e recursos sempre a se encontrar pelas periferias, vai alcançando os limites do planeta.
Ainda sem nome está o remédio. Chamem-no comunismo, se quiserem. Mas será outro comunismo.
A estratégia zumbi e o fim de um projeto
Nem sei o que dizer, só sentir.
O Governo Dilma acabou. Sei que muitos amigos irão ficar irritados com a minha afirmação, talvez até dizendo que colaboro com o golpismo, mas nesse caso estariam apenas matando o mensageiro. Não vibro com isso: sempre torço para estar errado nos meus diagnósticos e prognósticos pessimistas, ainda mais considerando que milhões de brasileiras e brasileiros votaram em Dilma Rousseff. O fim do governo é simplesmente um fato. É impossível executar um projeto sem a mínima base política. E o governo atual não tem, simplesmente, base política. Não adianta chamar de burros ou coxinhas os detratores. É gente demais para caber no rótulo. Obviamente, há muita gente burra e muitos coxinhas fazendo a festa, aproveitando a crise política para defender ideias estapafúrdias como a volta da ditadura ou destruir as conquistas em termos de direitos civis da Nova República. São muitos, mas é demais generalizar. É muita gente contra. Ontem mesmo…
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Um Jogo de Cadeirões, ou: Cunha, o Rei Louco de Brasília
(insira aqui ilustração de Eduardo Cunha sobre o trono de Ferro)
Quem deverá substituir Cunha, ferido de morte pela própria arrogância?
Institucionalmente, a resposta é simples. O regimento indica que o sucessor seria o Primeiro Vice-Presidente da casa, deputado Waldir Maranhão (PP-MA). Ex-reitor da Universidade Federal do Maranhão e de profunda vocação populista progressista, Maranhão tem uma grande chance de emplacar como um líder aglutinador e discreto, o contrário de seu (assim já queremos chamá-lo) antecessor. Maranhão seria também o primeiro presidente negro da história da casa.
O problema é que a Lava-Jato também respingou nele. Segundo depoimento do corruptor Alberto Youssef, o deputado seria um dos beneficiários de recursos subtraídos da Petrobras. Já o Segundo Vice-Presidente, nosso conterrâneo Fernando Giacobo (PR-PR), tem uma questiúncula envolvendo formação de quadrilha e e falsidade ideológica. É herdeiro político e, de fato, genro do falecido Vice-Presidente José Alencar. Já contra o Primeiro Secretário Beto Mansur (PRB-SP), até agora, constam apenas indícios de exploração de trabalho escravo em suas fazendas no Goiás; em termos midiáticos, nada muito grave.
Contra esses últimos, portanto, nada consta. Pelo menos por enquanto.
Maranhão tem se comportado discretamente, fazendo discursos adocicados tanto para acusados quanto para o público enfurecido. Um tal comportamento pode ser tanto sinal de cautela (por saber que só são chacoalhados de seus tronos os mais alvejados pelas câmeras e microfones) quanto de ambição. O maranhense poderia estar apenas esperando a casa cair enquanto trabalha nas sombras pelo arquivamento das denúncias. Seu partido é um dos mais fortes da base governamental, mas Maranhão teve de romper a pax governista para concorrer como vice de Eduardo; isso pode indicar tanto uma dose generosa de ambição quanto outra razoável de prevenção já que, mais do que membro da Mesa Diretora, Maranhão é o substituto de Cunha, e poderá fazer com que a casa retorne ao controle da articulação governista (pelo devido preço). Do contrário manterá a mesma agremiação urdida por Cunha, que amassa a oposição de direita mais a geléia geral interesseira. Só que escolhendo um ritmo mais brejeiro.
Giacobo, de ascenção meteórica (é genro do finado Vice-Presidente José Alencar, fundador de seu partido), está por ora livre da Lava-Jato. Giacobo faz o tipo conservador discreto, sem gosto por escândalos e fundamentalismos. Mas sua improvável presidência, resultado de duas quedas simultâneas, já começaria a indicar o enfraquecimento da instituição.
Mais ainda, poucos parecem interessados em coroar Mansur, inepto e provinciano, verdadeira personificação do baixo-clero. Depois dele ainda há oito nomes legalmente elencados, um mais despreparado do que os outros, prontos e com desejo de assumir. Serão mais uma herança nefasta do Rei Louco de Brasília.
Youssef tem o benefício de poder falar qualquer coisa, ficando à Procuradoria Geral da República (também conhecida como “o Janot”) a responsabilidade por colher provas e encaminhar acusações. Não esperaremos ver isso muito cedo, pelo menos em relação à maioria dos envolvidos. Cunha, que apostou no poder pessoal para bater de frente com Janot, acertou o guardrail. Nenhum dos outros tem tendência a prosseguir pelo mesmo caminho.
Caso a Lava-Jato respingue na mesa diretora como um todo, fica difícil saber se uma nova eleição estará na ordem da vez. Nesse caso, volta reinvigorado à disputa o PT, cujo acordo inicial com o PMDB (desfeito em benefício de Renan, Cunha e Aécio da Cunha) previa um petista nestes primeiros dois anos de legislatura. É um tiro longo; o candidato seria, a princípio, José Guimarães(PT-CE), atual líder do governo e partido, e ainda incólume.
Ninguém na oposição parece preocupado em lançar um candidato independente.
Se os cosmonautas não voltassem
O que aconteceria se Neil Armstrong e Buzz Aldrin não conseguissem retornar à Terra?
O gabinete do presidente Nixon preparou um discurso para o caso de fatalidade:
O destino decidiu que aqueles homens que foram à lua explorar em paz continuem na lua para descansar em paz.
Esses bravos homens, Neil Armstrong e Edwin Aldrin, sabem agora que não há esperança para seu regresso. Mas também sabem que há esperança para a humanidade em seu sacrifício.Esses dois homens entregaram suas vidas ao objetivo mais nobre da humanidade: a busca pela verdade e pelo conhecimento.
Eles serão contristados por suas famílias e amigos; serão contristados pela nação; serão contristados pelo mundo; e serão contristados pela Mãe Terra, que ousou enviar dois de seus filhos para o desconhecido.
Em sua aventura, eles incitaram os povos da Terra a sentir-se um único povo; em seu sacrifício, atam com maior força os laços da irmandade humana.
Na antiguidade os homens olhavam para as estrelas e viam seus heróis nas constelações. Na modernidade fazemos o mesmo, mas nossos heróis são homens notáveis de carne e osso.
Outros seguirão, e com certeza encontrarão o caminho de volta.
A busca dos homens não será negada. Mas esses homens foram os primeiros, e permanecerão os maiores em nossos corações.
Pois cada ser humano que olhar para a lua nas noites por vir saberá que em certo lugar daquele outro mundo haverá, para sempre, humanidade.
FDR
Let me warn you and let me warn the Nation against the smooth evasion which says, “Of course we believe all these things; we believe in social security; we believe in work for the unemployed; we believe in saving homes. Cross our hearts and hope to die, we believe in all these things; but we do not like the way the present Administration is doing them. Just turn them over to us. We will do all of them- we will do more of them we will do them better; and, most important of all, the doing of them will not cost anybody anything.”
– Franklin Delano Roosevelt
Mais no link.
Apocalipse Now
Economia fundada na exportação de bens primários, mercado financeiro internacional volátil, clima global em colapso; conflitos políticos em todos os continentes; guerras civis, terror, genocídio. Podemos concluir, a partir das premissas, que o Brasil vai quebrar, o governo vai sumir, e a ditadura vai voltar ou pior?
para Ricardo Pozzo
História de Lucrécia
Públio Ovídio Naso
Fastos
Tradução de Antônio Feliciano de Castilho
Tomo II
Cercada pelo exército romano,
um sítio pertinaz sofria Ardeia.
Enquanto a dura guerra está pendente,
enquanto aventurar feroz combate
teme a prudência; os chefes e os soldados
folgam nos arraiais em ócio ledo.
Nisto o filho do Rei, Tarquínio o moço,
a esplêndido festim convida os sócios;
e reinando a alegria assim lhes fala:
“Agora, que de Ardeia o vagaroso
assédio nos detém, não nos permite
as armas conduzir aos pátrios deuses;
dos toros conjugais a fé mantendo,
as esposas gentis, que suspiramos,
suspirarão por nós? serão quais somos?”
Já cada qual sem termo a sua exalta;
aceso pelo amor, cresce o debate;
dos brindes no licor fogoso e puro
a mente, o coração, e a língua, fervem.
Mas eis que dentre os mais surgindo aquele
a quem de alto apelido honrou Colácia,
“As palavras são vãs; creia-se em coisas:
a noite nos sobeja; esporeemos
os robustos cavalos; eia! a Roma!”
O dito agrada; enfreiam-se os ginetes;
os sôfregos mancebos partem, voam.
Vão da estância real primeiro às portas,
onde guarda nenhum velando encontram.
Entram; colhem de súbito engolfada
em festivo prazer e em rubro néctar,
as tranças com mil flores desparzidas,
a que ao filho em consórcio o Rei ligara.
Prontos caminham logo a ver Lucrécia.
Alvejavam da cândida matrona
no fuso luzidio as mãos de neve;
no estrado aos pés do leito as lãs se viam
nos curiosos cestos coguladas;
em torno à luz solicitadas as servas
a noturna tarefa promoviam.
Lucrécia em tom macio, em voz mimosa,
destarte lhes dizia, as incitava:
“É para Colatino; eia apressai-vos;
cumpre mandar em breve ao meu consorte
isto em que a nossa indústria exercitamos.
Vós, que tanto indagais e ouvis, soubestes
quanto ainda se crê que dure a guerra?
Dos fortes ao poder te opões sem fruto;
vencida cairás, Ardéia iníqua,
que de nossos esposos nos separas.
Tornem, tornem, ó Ceus! Mas ai? Que ideia!
o meu é destemido, é temerário,
tem gênio de arrojar-se ao fogo, ao ferro!
foge-me a luz, o alento, esfrio, e morro
quando entre os inimigos o afiguro.”
Nisto o pranto amoroso a voz lhe corta;
cai-lhe o fio da mão; e o lindo gesto
sobre o mole regaço inclina a triste;
dobram-lhe a graça as lágrimas pudicas,
e mostra um coração igual ao rosto.
Eis o esposo aparece; e “Não receies;
aqui me tens” – lhe diz; ela revive,
ela os braços lhe lança, e longo espaço
pende do colo amado o doce peso.
Em tanto de amor cego o régio moço
arde, morre, e lhe atrai, lhe enleva os olhos
a forma, a nívea cor, e a loura trança,
e o grave adorno, límpido, e sem arte;
a fala o prende, as expressões o encantam,
e o que à vil sedução não é sujeito.
Quanto menos esperas, mais desejas,
mais te afogueias, sequioso amante.
Cantará o núncio da risonha Aurora,
e aos fortes arraiais os sócios volvem.
Atônito em paixão Tarquínio ferve,
gozando na revolta fantasia
a bela imagem de Lucrécia ausente;
e ali tudo o que viu mais lindo observa.
“Assim – diz entre si – a achei sentada;
era o seu traje assim; e a mão suave
o longo tênue fio assim torcia.
destarte lhe caíam no alvo colo
áureas madeixas, ao desdém lançadas;
tinha este modo; estas palavras disse;
este o semblante, a graça, a cor, e a boca.”
Como se vê no Mar depois que os Ventos,
as asas sacudindo, o flagelaram,
que, já puros os Céus, inda esbraveja
com a ríspida impressão do horrendo assalto;
tal, posto que tão longe a bela estava,
o incêndio que ateou no amante ardia.
Penando, a de paixão desesperado,
projeta macular com força e dolo
o tálamo sagrado, o casto objeto.
“O efeito é duvidoso, – eis diz o insano –
porém não se fraqueje; ousemos tudo;
audazes corações proteje a sorte;
foi com o ousar que me apossei dos Gábios.”
Cala-se, e já perdura ao lado a espada;
já de um rápido bruto oprime as costas.
Corre; está de Colácia à férrea porta,
quando o Sol já mergulha o carro de ouro.
O inimigo, como hóspede, nos lares
do ausente Colatino é logo aceito,
(que o vínculo do sangue os dois prendia);
a dama com primor o acolhe e trata;
ai, que enganada está! Manda que aprontem,
sem suspeita do crime, a lauta mesa.
Contente do alimento, o sono exiges,
ò lassa Natureza.
Era alta noite;
na estância lume algum não cintilava;
levanta-se o traidor, um ferro impunha,
vai manso e manso ao tálamo pudico;
mal que o toca: “Um punhal comigo trago,
Lucrécia – ele lhe diz – eu sou Tarquínio,
sou o filho do Rei.” Nada responde,
nem pode responder Lucrécia absorta;
de assombro, de terror jaz fria e muda;
mas, como a lamentável cordeirinha,
que no tosco redil desamparada
entre as garras se vê do lobo infesto,
ante o fero amador Lucrécia teme.
Que fará? contender? lutar por ele?
Ela é débil mulher, será vencida.
Gritará? Tem na destra um ferro, o monstro.
Fugirá? Dura mão lhe aperta o peito,
não manchado até ali de toque infame.
Insta com rogos o inimigo amante,
com prêmios, e ameaças; mas seus rogos,
seus prêmios, e ameaças… nada alcançam.
“Não cedes, inumana, a meus transportes?
pois – o bárbaro diz – hei-de arrancar-te
com este ferro a vida, apregoando
que em adultério vil com um torpe escravo
te colhi; ao teu lado o porei morto,
e horrenda ficará tua memória!”
A matrona infeliz, temendo a fama,
à fúria sucumbiu do fementido.
Indigno vencedor, para que exultas?
Será tua ruína essa vitória.
Ai! quanto ao sólio teu custa uma noite!
Dissipando-se as trevas, aparece
Lucrécia desgrenhada, e qual costuma
ir lacrimosa mãe do filho à pira.
O consorte fiel e o pai longevo
chama do campo; os dois acodem logo.
Vêem-lhe o luto, e do luto a causa inquirem.
Perguntam-lhe que mal, que dor a anseia,
e as honras funerais a quem consagra.
Ela fica em silêncio um longo espaço,
e no véu lutuoso esconde a face,
soltas em fio as lágrimas formosas.
Consolando-a com a voz, e com os afagos,
daqui lhe roga o pai, dali o esposo
que fale enfim, que exprima o que padece;
e choram, tremem com pavor incerto.
Três vezes começou, parou três vezes;
à quarta se atreveu a declarar-se,
mas sem a vista erguer: “Tarquínio a isto
me obrigará também? – profere a triste –
eu mesma hei de narrar a injúria minha?
eu mesma, desditosa, hei de afrontar-me?”
Conta o que pode… cala o mais… e chora;
e o pejo lhe afogueia a face honesta.
O pai e esposo o crime involuntário
perdoam. “Perdoais? eu não” – diz ela
e aguçado punhal, que traz oculto,
com a melindrosa mão no seio imbebe.
Cai aos paternos pés ensanguentada,
e olhando para si, já moribunda,
para ver se o pudor na queda ofende;
este o cuidado da infeliz morrendo.
Eis justo ao corpo amado o pai, o esposo,
deslembrados da glória e do decoro,
jazem carpindo seu comum desastre.
Bruto, que a cena infausta presencia,
e o nome com o espírito desmente,
do peito semivivo arranca o ferro;
e ali na mão com ele, que destila
da vítima formosa o puro sangue,
num ar ameaçador tais vozes solta
do afoito coração: “Por este honrado,
por este varonil egrégio sangue,
e por teus Manes que serão meus Numes,
juro ao feroz Tarquínio um ódio eterno;
juro de o proscrever, e à prole infame;
seus crimes infernais serão punidos;
tens, ó virtude, assaz dissimulado.”
Ao som destes impávidos protestos,
os olhos, já sem luz, ergue Lucrécia:
meneando a cabeça, aprova e morre.
Sobre funéreo leito se coloca
o gentil corpo da heroína excelsa.
O espetáculo triste expõe-se a todos,
e deve a todos lágrimas e inveja.
Vai patente a ferida. O denodado
Bruto, vociferando, incita o povo,
e do mancebo audaz lhe narra o crime.
Com a estirpe cruel Tarquínio foge.
Foi aquele o famoso último dia
em que o duro opressor deu leis a Roma.