História de Lucrécia

Públio Ovídio Naso
Fastos
Tradução de Antônio Feliciano de Castilho

Tomo II

Cercada pelo exército romano,
um sítio pertinaz sofria Ardeia.
Enquanto a dura guerra está pendente,
enquanto aventurar feroz combate
teme a prudência; os chefes e os soldados
folgam nos arraiais em ócio ledo.

Nisto o filho do Rei, Tarquínio o moço,
a esplêndido festim convida os sócios;
e reinando a alegria assim lhes fala:
“Agora, que de Ardeia o vagaroso
assédio nos detém, não nos permite
as armas conduzir aos pátrios deuses;
dos toros conjugais a fé mantendo,
as esposas gentis, que suspiramos,
suspirarão por nós? serão quais somos?”

Já cada qual sem termo a sua exalta;
aceso pelo amor, cresce o debate;
dos brindes no licor fogoso e puro
a mente, o coração, e a língua, fervem.

Mas eis que dentre os mais surgindo aquele
a quem de alto apelido honrou Colácia,
“As palavras são vãs; creia-se em coisas:
a noite nos sobeja; esporeemos
os robustos cavalos; eia! a Roma!”

O dito agrada; enfreiam-se os ginetes;
os sôfregos mancebos partem, voam.

Vão da estância real primeiro às portas,
onde guarda nenhum velando encontram.
Entram; colhem de súbito engolfada
em festivo prazer e em rubro néctar,
as tranças com mil flores desparzidas,
a que ao filho em consórcio o Rei ligara.

Prontos caminham logo a ver Lucrécia.

Alvejavam da cândida matrona
no fuso luzidio as mãos de neve;
no estrado aos pés do leito as lãs se viam
nos curiosos cestos coguladas;
em torno à luz solicitadas as servas
a noturna tarefa promoviam.
Lucrécia em tom macio, em voz mimosa,
destarte lhes dizia, as incitava:
“É para Colatino; eia apressai-vos;
cumpre mandar em breve ao meu consorte
isto em que a nossa indústria exercitamos.
Vós, que tanto indagais e ouvis, soubestes
quanto ainda se crê que dure a guerra?
Dos fortes ao poder te opões sem fruto;
vencida cairás, Ardéia iníqua,
que de nossos esposos nos separas.
Tornem, tornem, ó Ceus! Mas ai? Que ideia!
o meu é destemido, é temerário,
tem gênio de arrojar-se ao fogo, ao ferro!
foge-me a luz, o alento, esfrio, e morro
quando entre os inimigos o afiguro.”

Nisto o pranto amoroso a voz lhe corta;
cai-lhe o fio da mão; e o lindo gesto
sobre o mole regaço inclina a triste;
dobram-lhe a graça as lágrimas pudicas,
e mostra um coração igual ao rosto.

Eis o esposo aparece; e “Não receies;
aqui me tens” – lhe diz; ela revive,
ela os braços lhe lança, e longo espaço
pende do colo amado o doce peso.

Em tanto de amor cego o régio moço
arde, morre, e lhe atrai, lhe enleva os olhos
a forma, a nívea cor, e a loura trança,
e o grave adorno, límpido, e sem arte;
a fala o prende, as expressões o encantam,
e o que à vil sedução não é sujeito.

Quanto menos esperas, mais desejas,
mais te afogueias, sequioso amante.

Cantará o núncio da risonha Aurora,
e aos fortes arraiais os sócios volvem.
Atônito em paixão Tarquínio ferve,
gozando na revolta fantasia
a bela imagem de Lucrécia ausente;
e ali tudo o que viu mais lindo observa.
“Assim – diz entre si – a achei sentada;
era o seu traje assim; e a mão suave
o longo tênue fio assim torcia.
destarte lhe caíam no alvo colo
áureas madeixas, ao desdém lançadas;
tinha este modo; estas palavras disse;
este o semblante, a graça, a cor, e a boca.”

Como se vê no Mar depois que os Ventos,
as asas sacudindo, o flagelaram,
que, já puros os Céus, inda esbraveja
com a ríspida impressão do horrendo assalto;
tal, posto que tão longe a bela estava,
o incêndio que ateou no amante ardia.
Penando, a de paixão desesperado,
projeta macular com força e dolo
o tálamo sagrado, o casto objeto.

“O efeito é duvidoso, – eis diz o insano –
porém não se fraqueje; ousemos tudo;
audazes corações proteje a sorte;
foi com o ousar que me apossei dos Gábios.”
Cala-se, e já perdura ao lado a espada;
já de um rápido bruto oprime as costas.

Corre; está de Colácia à férrea porta,
quando o Sol já mergulha o carro de ouro.
O inimigo, como hóspede, nos lares
do ausente Colatino é logo aceito,
(que o vínculo do sangue os dois prendia);
a dama com primor o acolhe e trata;
ai, que enganada está! Manda que aprontem,
sem suspeita do crime, a lauta mesa.

Contente do alimento, o sono exiges,
ò lassa Natureza.

Era alta noite;
na estância lume algum não cintilava;
levanta-se o traidor, um ferro impunha,
vai manso e manso ao tálamo pudico;
mal que o toca: “Um punhal comigo trago,
Lucrécia – ele lhe diz – eu sou Tarquínio,
sou o filho do Rei.” Nada responde,
nem pode responder Lucrécia absorta;
de assombro, de terror jaz fria e muda;
mas, como a lamentável cordeirinha,
que no tosco redil desamparada
entre as garras se vê do lobo infesto,
ante o fero amador Lucrécia teme.

Que fará? contender? lutar por ele?
Ela é débil mulher, será vencida.
Gritará? Tem na destra um ferro, o monstro.
Fugirá? Dura mão lhe aperta o peito,
não manchado até ali de toque infame.

Insta com rogos o inimigo amante,
com prêmios, e ameaças; mas seus rogos,
seus prêmios, e ameaças… nada alcançam.

“Não cedes, inumana, a meus transportes?
pois – o bárbaro diz – hei-de arrancar-te
com este ferro a vida, apregoando
que em adultério vil com um torpe escravo
te colhi; ao teu lado o porei morto,
e horrenda ficará tua memória!”

A matrona infeliz, temendo a fama,
à fúria sucumbiu do fementido.

Indigno vencedor, para que exultas?
Será tua ruína essa vitória.
Ai! quanto ao sólio teu custa uma noite!

Dissipando-se as trevas, aparece
Lucrécia desgrenhada, e qual costuma
ir lacrimosa mãe do filho à pira.
O consorte fiel e o pai longevo
chama do campo; os dois acodem logo.
Vêem-lhe o luto, e do luto a causa inquirem.
Perguntam-lhe que mal, que dor a anseia,
e as honras funerais a quem consagra.

Ela fica em silêncio um longo espaço,
e no véu lutuoso esconde a face,
soltas em fio as lágrimas formosas.

Consolando-a com a voz, e com os afagos,
daqui lhe roga o pai, dali o esposo
que fale enfim, que exprima o que padece;
e choram, tremem com pavor incerto.

Três vezes começou, parou três vezes;
à quarta se atreveu a declarar-se,
mas sem a vista erguer: “Tarquínio a isto
me obrigará também? – profere a triste –
eu mesma hei de narrar a injúria minha?
eu mesma, desditosa, hei de afrontar-me?”

Conta o que pode… cala o mais… e chora;
e o pejo lhe afogueia a face honesta.

O pai e esposo o crime involuntário
perdoam. “Perdoais? eu não” – diz ela
e aguçado punhal, que traz oculto,
com a melindrosa mão no seio imbebe.
Cai aos paternos pés ensanguentada,
e olhando para si, já moribunda,
para ver se o pudor na queda ofende;
este o cuidado da infeliz morrendo.

Eis justo ao corpo amado o pai, o esposo,
deslembrados da glória e do decoro,
jazem carpindo seu comum desastre.

Bruto, que a cena infausta presencia,
e o nome com o espírito desmente,
do peito semivivo arranca o ferro;
e ali na mão com ele, que destila
da vítima formosa o puro sangue,
num ar ameaçador tais vozes solta
do afoito coração: “Por este honrado,
por este varonil egrégio sangue,
e por teus Manes que serão meus Numes,
juro ao feroz Tarquínio um ódio eterno;
juro de o proscrever, e à prole infame;
seus crimes infernais serão punidos;
tens, ó virtude, assaz dissimulado.”

Ao som destes impávidos protestos,
os olhos, já sem luz, ergue Lucrécia:
meneando a cabeça, aprova e morre.

Sobre funéreo leito se coloca
o gentil corpo da heroína excelsa.
O espetáculo triste expõe-se a todos,
e deve a todos lágrimas e inveja.
Vai patente a ferida. O denodado
Bruto, vociferando, incita o povo,
e do mancebo audaz lhe narra o crime.

Com a estirpe cruel Tarquínio foge.

Foi aquele o famoso último dia
em que o duro opressor deu leis a Roma.

Anúncios

About ugolini

Mora em Curitiba.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: